28.4.07

DISSERTAÇÃO: FILME MATRIX






Este texto eu entreguei em 16/04/07, para o Prof. Borges, matéria de filosofia.

NEO E SOCRATES – Questionamento, missão e escolha.

No inicio do filme, Neo desconfia que haja algo errado, questiona a realidade, porém, não tem idéia do que realmente o incomoda.
A realidade em que vive é representada por uma sociedade decadente e corrupta, com suas regras e um sistema onde todos estão inseridos, que faz questão de demonstrar o que é estar à margem, isso fica claro na relação de poder patrão-empregado, ou Neo se adapta ao emprego ou está fora.
Sócrates passou por situação semelhante. Atenas viveu o apogeu e a crise da Democracia, onde valores como justiça e virtude são ostentados por cidadãos que não fazem idéia do real significado dessas palavras (não é necessário, eles fazem parte do sistema). As autoridades estavam contaminadas por conspirações e corrupção.
Sócrates não aceita, essa realidade o incomoda. A partir de uma consulta feita ao oráculo, recebe a informação de que é mais sábio entre todos porque sabe que nada sabe. Após receber a mensagem, procura coloca-la à prova, e então parte para o questionamento de tudo, acreditando ser essa a sua missão. Segundo Platão a sociedade reclamava dessa forma de Sócrates: “Só o que fazes é encontrar por toda parte dificuldades e cria-las aos outros” Valverde (1987).
Quando questiona e, mais que isso, ensina a questionar com seus combates mentais, Sócrates é acusado de corromper a juventude; as autoridades - representação do poder - incomodadas o condenam à morte, (assim como poderia ter acontecido a Neo no começo do filme; por não se adaptar, Sócrates está fora).
Depois de condenado, apesar de saber “que as autoridades poderiam fazer vistas grossas à sua fuga”, Valverde (1987), ele escolhe cumprir sua sentença.
Sócrates, no cumprimento de sua missão, consegue transpor a pergunta “O que é” ao propor uma formulação de questões adequadas para encaminhar o pensamento à essência das coisas, à realidade.
Nesse ponto começa o distanciamento entre o personagem Neo e o filósofo Sócrates. Apesar de se questionar e se incomodar Neo ainda não sabe como fazer as perguntas certas, tanto que Triniti ao descrever suas angustias observa: “ É a pergunta que nos impulsiona Neo. A resposta está ai Neo. Ela esta a sua procura. E ela te encontrará se você desejar” Alves (2004).
Neo, antes de ser “convocado” para conhecer a verdade, age como hacker e guarda seus disquetes num livro falso, que tem o título de Simulacro e simulação, do filósofo Jean Baudrillard, para o qual não existe uma realidade absoluta e totalizadora, em suas palavras: “O sistema gira desse modo, sem fim e sem finalidade.” “Fazer acontecer um mundo real é já produzi-lo, e o real jamais foi outra coisa senão uma forma de simulação” Baudrillard apud Lopes (p 101, 2005).
Neo, não acredita na verdade absoluta e totalizadora, não acredita no destino, pois não aceita ser controlado, durante toda a sua trajetória ele busca a liberdade através dos seus questionamentos e sempre tem que fazer escolhas, apesar de desconfiar que a Matrix não deixará de fazer vistas grossas se ele tentar fugir. Na busca por respostas, é exposto à possibilidade de uma suposta realidade aonde esteve sempre dormindo, e é informado que tem uma missão. Ele não concebe a idéia de sua missão como Sócrates, ela lhe é imposta.
A liberdade está fora da Matrix e a escolha pela pílula vermelha mesmo antes de acontecer a consulta ao oráculo o aproxima das idéias de Platão.

NEO E PLATÃO

Platão, discípulo de Sócrates dizia que o mundo em que vivemos não é a Verdade, mas uma cópia da Verdade, e que o mundo perfeito, ou seja, “o plano das Idéias não se poderia realizar na materialidade, e a única maneira de alcançá-lo era pelo pensar, pela reflexão, sendo a Filosofia um veículo imprescindível para esse fim”, Lopes (p 101, 2005).
No Mito da Caverna, Platão deixa claro que sem essa reflexão não há a busca pela liberdade. A Matrix é a caverna e Neo o filósofo que, enxergando a luz (o reconhecimento do Real, através da pílula vermelha) não poderá mais viver na ilusão, esse é um caminho irreversível. Neo nesse momento já enxergou a realidade, se envolve com as lutas - combates mentais - porém quando consulta o oráculo, não se sente preparado, ele ainda não tem certeza que a resposta está dentro dele (“Conhece-te a ti mesmo”), Morpheu o alerta: “Não pense que é capaz, saiba que é capaz” Araújo (p13, 2002). A partir daqui, toda sua trajetória esta vinculada ao seu processo de auto conhecimento, que se dá através das escolhas morais que tem que fazer: salvar a si mesmo ou salvar Morpheu, entender ou não a traição de Cipher, acreditar ou não que é o escolhido.
Segundo Araújo (p 13, 2002) “Saber é mais que pensar, é agir, é ir além do conhecimento teórico, é ação, pois saber é viver o que se conhece”,
Na luta final, no metrô, com o agente Smith, representação da Matrix, apesar de não acreditar ser o escolhido ele conquista o auto conhecimento decifrando a Matrix, passa então a viver o que conhece e conquista as condições de “renascer” para a realidade.

Bibliografia

ARAUJO, Márcia Santiago de. Natureza e Artifício. Fundação Universidade Federal do Rio Grande. Rio Grande. pg 13. 2002.

CHAUI, Marilena. Convite à Filosofia.Ática, 2006.
LOPES. Eduardo Simonini. A Realidade do Virtual. Psicologia em revista, Belo Horizonte, v.11, nº 17, p 101, Junho 2005.
VALVERDE, José Maria. História do Pensamento. Nova Cultural. São Paulo, 1987.

Na internet:
ALVES, Giovanne. De Matrix, Projeto de extensão Tela Crítica 2004. Em:
http://www.telacritica.org/projetoextensao.htm, acessado em 04/04/07.

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